sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Você não!

Eu só queria parar. Apenas por alguns instantes. Poder fechar os olhos. Deixar cair. Sentir o vento por entre os braços. Saber que não existe nenhum horário, nenhum cliente, ninguém para cobrar. Queria apenas parar. Eu queria poder refletir, pensar, pesar. Queria apenas descobrir por onde seguir. Queria esquecer que uma avalanche despencará sobre minha cabeça antes mesmo do fim destas palavras. Queria apenas o direito de deitar sobre a relva e por alguns instantes apagar.
Apagar desta realidade que já deu tantas e tantas voltas e que já não faz mais sentindo algum. Poder pesar essas duas décadas de existência e encontrar a medida que realmente ainda importa. Queria apenas a chance de não ser empurrado. Queria a chance de decidir sobre os passos, sobre as estradas, as pegadas, sobre as chegadas. Queria por a prova todas as certezas rachadas que hoje já não convencem de nada.
Seria apenas um mergulho. Descansar a nuca e cair. Descansar as pálpebras e cegar. Mas sem que as tormentas me atinjam ao primeiro segundo. Sem que os passos me pisoteiem no apressado passeio. Sem que as vozes me vaiem pela sinceridade do ato. Sem que as mãos se desatem pela insegurança declarada. Sem que os olhares tripudiem da inexpressividade. Sem que a razão me declare hipócrita.
Apenas pelo direito de não ter que provar. Apenas pelo direito de não ter um futuro traçado. Apenas pelo direito de ousar, de errar, de tentar. Pela vontade de dialogar com a angústia, de interrogar a dúvida, de inquirir o desejo, de proceder a contatos pueris.
Mas é pena que este tempo já não permita. As mãos se desatariam. A confiança pisotearia. Não permitem mais que deixe de atuar. Já não há mais descanso entre as cenas. A fantasia que se desenha não permite ensaios ou esboços. O faz de conta é sério, agora. Sejas trêmulo, se quiseres, mas cruze os braços pra demonstrar a altivez que conquistou há pouco (e por pouco). Não se permite mais incertezas, inseguranças, cobardias. Eles podem, você não.

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