domingo, 2 de outubro de 2011

E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?

"Eu acho que eu te amo". Naquele quarto escuro. Frio. Sob o som de alguma música agradável. Com o corpo semi-encoberto por aquele edredom branco com listras azuis e verdes. Foram essas as palavras que aquela voz doce, sincera e envolvente pronunciou. 
Não posso dizer que lhe pareceu estranho. Não houve um imediato revide. Ele não lhe retribuiu com um seco "também". Muito menos com um automático "Também te amo". De súbito, tudo o que ele pode fazer foi sentir (e perceber) aquele - inesperado e involuntário - caminho que tais palavras percorreram em todo o seu ser.
Após passarem pelas barreiras auditivas aqueles fonemas provocaram inúmeras sinapses que trataram de ecoar a bendita frase. Caíram então na corrente sanguínea. Desceram rio a baixo e, estranhamente, a correnteza as levou a todas as cavidades possíveis presentes no coração. Inflaram o órgão que - de pronto e após cravar os fonemas em si - bombeou-as para todos os confins daquele corpo. Como um vulcão que expele larvas desordenadamente e que inunda os arredores com aquela chama líquida, aquela forte batida cardíaca impulsionou o uníssono eco das tais palavras.
Em um sentido partiram velozmente deslizantes rumo ao chão, percorrendo as pernas (acariciando-as e fazendo-as suspirar) até encontrar o limite dos pés - dando-os à sensação de que as suas plantas estavam a flutuar. Em outro, partiram pela extensão dos braços. Despertaram arrepios. Os pelos ouriçaram-se até que a tal frase atingiu a ponta dos dedos, fazendo-os bailar desordenadamente. Do coração partiu ainda um jato que atingiu o estômago, como aquelas boas notícias que nos emocionam e nos deixam instantaneamente felizes, nos desarmam de ansiedades e possíveis temores.
Assim, com o corpo pulsando inteiramente e intensamente, o rosto foi atingido. Sua expressão tornou-se leve, desenrugada, tranquila. Ao chegar aos lábios e bochechas produziram um tremor que desaguou num sorriso aberto, franco e natural.
Por fim, o cérebro - produtor das sinapses iniciais (e que não foi capaz de captá-las e processá-las de imediato) - ouviu as tais palavras. Pego de surpresa (e de contentamento) só foi capaz de produzir lembranças. Lembrou de alguns dias do ano que havia passado há pouco. De um tal dia 9/10, quando pode ouvir aquela voz pela primeira vez. De um tal 10/10, quando tocou - com seus lábios - a boca que pronunciou a frase em questão. Lembrou da despedida precoce ocorrida naquele ano. Lembrou dos tantos dias em que lamentou (e expressou em textos) não ter sido mais e não ter podido conquistá-la e estar ao lado dela.  Lembrou da recente volta, da efervescência de sentimentos comodamente adormecidos, bem como lembrou dos sorrisos e das confidências que ela trouxe ao voltar. Lembrou dos períodos de distanciamento e da silenciosa (e recente desvelada) reciprocidade do que sentiam.
Todo esse processo sensitivo de transmissão corpórea não prolongou-se por mais que três ou quatro segundos. A olho nu talvez possamos dizer que ele ouviu aquilo e sorriu e se contorceu (levemente). Um sorriso próprio do contentamento daqueles que esperam - sem cobrar - pelo voluntário despertar dos sentimentos. 
Após tudo isso, pode apenas dizer. "Eu também já amo você e tinha medo de dizer-te e assustar-te".

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