domingo, 11 de setembro de 2011

Dançando no escuro (2000)



Eu não tenho (como exaustivamente digo) nenhum conhecimento acerca do cinema. O que eu sei sobre o cinema é o que sinto do cinema. E por falar em sentir, confesso ser meio duro com algumas cenas construídas impunemente. Não me comovo com melodramas óbvios, nem com pseudo problemas existenciais, muito menos com sensibilidades forjadas. Me comovo (e muito) com dores verdadeiramente dolorosas. Me comovo com crueldades, com injustiças, com torturas reais. Isso quanto à vida. E isso quanto ao cinema.
Pois bem. Se me perguntares qual tipo de filme gosto, te respondo de imediato: de filmes reais, humanos. Não possuo grande talento pra apreciar películas formalmente Cults: ainda não consegui sequer ver Bergman, nem compreender Godard da forma devida. Também não cometo a gafe de dizer "hoje eu quero um filme alegre" ou "hoje eu quero um romancinho". Não. Hoje eu quero descobrir um bom filme ou hoje eu não quero assistir a nenhum filme.
Os meus bons filmes, os filmes humanos, sempre trazem estórias que refletem relações que despertam sentimentos essencialmente humanos, que se embrenham pelo mais profundo do ser (humano). De minha pouca (ou nenhuma) experiência como expectador, emergem filmes como "Réquiem para um sonho", "Mar adentro", "Na natureza selvagem", porque a meu ver conseguiram penetrar nas profundezas do ser, nas profundezas do meu ser. Trazem até nós situações tão reais e de um modo tão marcante que inevitável é não afetarem nosso estado de espírito, nossos próprios sentimentos, nossa própria humanidade.
E quando eu já quase havia perdido as esperanças de encontrar (por minha absoluta incompetência) tramas desse porte me deparo com esta grandiosa obra do dinamarquês Lars Von Trier. Embora tenha nome de cineasta de arte, de grande autor cult (e clássico), eu não sabia citar nem mesmo algum de seus filmes. Embalado pela recente polêmica ocorrida em Cannes - e por uma entrevista concedida à edição de agosto da Revista GQ - fui atrás de sua filmografia. Na noite anterior o sono me impediu de uma análise (e audiência) profunda de seu "Dogville" (2003). Hoje, já restaurado, parti então a "Dançando no escuro" (2000).
O filme nos traz a história de uma imigrante tcheca (Selma Jezkova) que vem, nos anos 60, aos Estados Unidos em busca de melhores condições e - sobretudo - na tentativa de conseguir uma cirurgia para seu filho, portador - como ela - de uma doença oftálmica degenerativa. Para tanto, trabalha incessantemente para juntar o montante necessário para pagar pelo procedimento. Paralelo a isto nos é mostrado sua paixão por musicais. A trama se amplia quando Selma é roubada por seu vizinho.
O início da película é um tanto confuso. Von Trier nos descreve a trama aos poucos a partir dos diálogos dos personagens. A sua câmera é algo que inicialmente intriga. Sempre inconstante, filmada pelas mãos dos próprio diretor, com alguns cortes entre as ações. Interessante notar que as cenas foram rodadas na Suécia e na Dinamarca. Além disso, o diretor sequer conhecia os Estados Unidos quando fez o filme.
O certo é que traz uma contundente crítica ao país ianque. Uma crítica à crueldade das pessoas que nos remete à crueldade da nação americana, sempre disposta a explorar aqueles que necessitam de sua (duvidosa) ajuda. Um crítica ao seu sistema jurídico, sempre pronto a condenar impiedosamente (e impunemente). Um retrato do lado mais humano das pessoas, seja através da maldade, da ganância e da crueldade. Seja através da bondade, da amizade e do amor.
Há uma forte ligação do filme com os musicais americanos. O único momento de sonho e alegria da protagonista é quando, de fato, dança no escuro e sonha com imensos musicais nos quais canta e dança belamente. É aqui que se plenifica a atuação brilhante de Bjork - sempre intimamente presente na personagem. A atriz (ganhadora em Cannes, e que também é cantora) nos presenteia com uma atuação impecável, sempre preparada para nos atingir nos momentos em que a fotografia penetra no mais profundo de suas emoções.
Talvez a fotografia incomum e a atuação brilhante de Bjork e de Catherine Deneuve (que vive uma amiga da protagonista) sejam os pontos mais impressionantes do filme. Exatamente porque nos tocam de uma maneira tão automática que nem mesmo temos tempo de nos proteger. A fotografia é tão penetrante que nos mostra os personagens de uma maneira tão sincera que as vezes é difícil lembar que aquilo tudo é uma ficção.
E difícil escrever algo sobre o filme sem adentrar nos detalhes da trama. Como não gosto de fazê-lo, por supor que se (algum dia) alguém que não viu a película vier a me ler será vítima de uma tremenda sacanagem da minha parte, prefiro resguardar o enredo. Seguramente, posso dizer que as lágrimas são algo difícil de se segurar. A naturalidade e a verdade presentes na história e nas interpretações são tão evidentes que nos invadem e nos tocam profundamente. Um filme lindo, por ser um retrato da alma humana, da realidade humana, do ser (dito) humano.


Download: http://cinemacultura.com/?p=3060

1 comentários:

  1. lindo, triste e perfeito. sou durona, mas esse filme me emociona sempre.
    :)
    .
    .
    .

    ResponderExcluir