sábado, 9 de julho de 2011

Um domingo de esperança

Do poço profundo de minha ganância, do meu consumismo e de meu egoísmo posso dizer (convicto) que o desapego é uma das virtudes que mais guardo admiração. Me instiga e me dá prazer verificar alguém que consegue se livrar de tudo que (vulgarmente) deve ser parte integrante da vida de um ser humano médio e que consegue viver sob a luz de uma causa, de uma luta, de um ideal de maneira consciente e consistente. Por isso (em alguma medida) admiro os franciscanos da Toca de Assis, os hippies, os voluntários de toda ordem - enfim - todos aqueles que praticam o desapego ao que seja mundano.
Pois bem. Transportei-me para os longínquos caminhos de uma estrada de chão - pertencente ao município de Campo Maior - que ao fim nos leva ao pé de uma bela serra. Ali, duas casas simples. Outras duas por construir. Uma capela igualmente simples - lembrando uma cabana (e lembrando também a casa dos daimistas do "Céu de Todos os Santos"). Uma fazenda enorme que finda nas paredes de pedra da tal serra. Criações de animais (porcos, galinhas, alguns bois, dois cavalos) e várias pequenas roças.
Ali: Fazenda da Esperança Santa Faustina. Quando na volta pisei no solo quente de minha Teresina tive a plena certeza de que na manhã e tarde daquele domingo eu havia vivido um dia especial. Uma sensação de prazer, encantamento e contentamento me tomou a mente e o corpo. Parece-me que havia saído não só de minha cidade. Pareceu-me - ante a fluidez desses tais sentimentos - que eu havia me transportado espiritualmente. E o mais incrível é que lá o clima é de mais profundo catolicismo, emanado gratuitamente por seus moradores - e eu já me encontro afastado do catolicismo há 7 anos. Mesmo com essa diferença doutrinária, a energia incrivelmente positiva do lugar - doada a título gratuito pelas pessoas - percorreu todo o meu ser.
São vários homens que dia a dia lutam para afastarem-se de algo aterrorizante que os atormentou por algum período. Uma escravidão sem fim que os fez agredir suas famílias, seus amores, sua própria dignidade. A vontade que despertou - em alguém naturalmente observador e curioso - é a de entrevistar um a um para saber todo o caminho construído para barrar os tempos de voraz desconstrução. E o mais belo de tudo é verificar, ao conversar com alguns deles, que todos estão comprometidos com o mesmo sentimento: o desapego.
Lá não há mulheres. Não há conforto. Não há nem cigarros para vencer a ansiedade. Não há também as teias sociais. Só estão lá eles e o deus deles - e também a inevitável estrada do crescimento espiritual, da reconstrução. Lá - com todos - estão as regras do lugar, a disciplina, o trabalho (por vezes duro), uma religião, livros e, incrivelmente, a esperança. Está também uma voz rouca que clama para que voltem para os becos escuros e tenebrosos que os forçaram a ir este lugar de luz e - repito - de esperança.
Por tudo isso que não tem e por tudo aquilo que tem, é que a presença do desapego é tão marcante. Ver que o coordenador é uma garoto franzino de pouco mais de 20 anos - ex-recuperante - é outra vez sentir a clara presença do desapego. Sentir a alma em paz de alguém que até outro dia desses esteve na iminência de receber em seu ventre um espeto de churrasco deste que vos fala - apenas por esta ser a única forma de proteção de uma mãe e uma irmã ainda criança - é também uma forte expressão do desapego. Ouvir de um dos recuperantes a sua história, com todos os nove anos de cadeia em uma penitenciária de segurança máxima, todos os crimes, todo a loucura e violência de outros tempos, é um sinal imenso de desprendimento. Todos em constante abdicação de tudo que possa ser prazeroso além das cercar frágeis do lugar, simplesmente para salvarem a si e aos outros. Tudo isso por acreditar que a vida é tão superior a momentos de entorpecimento.
Ao lado do desapego esteve fortemente um sentimento muito pessoal. Me vinham à memória os meus momentos entorpecidos, enlouquecidos. As altas madrugadas em locais inóspitos, em contato com a escravidão de um prazer fútil e repugnante. As mentiras contadas, a confiança depositada em mim e cuspida por mim. Todos os fatos, atos e efeitos de atitudes impensadamente tortuosas.
Um dia a ser repetido uma vez ao mês. E pensar que outros compromissos me impediram de sentir essa pulsação convicta da vida - por quatro vezes - por puro desleixo.
E o mais emocionante foi a comemoração do aniversário de dois recuperantes. O sorriso das famílias com a vitória e a reconstrução conquistada dia a dia. As palavra de fé transmitidas e a confiança na vitória. O repassar do amor e da fraternidade. Impossível conter as lágrimas e o nó na garganta.
Pena é não poder trazer aqui à colação tudo o que este dia me possibilitou. Toda a emoção. Toda verdade. Uma lembrança pra vida inteira. A ser construída mais um pouco no mês que vem.

3 comentários:

  1. Paulo MarcondesJul 10, 2011 02:23 PM

    João Pedro:

    Lendo o que você escreve me transporto para a obra marcante e intensa dos grandes escritores que tocam a nossa alma tão profundamente que chega a doer. Não a dor da angústia ou mesmo física, mas a dor da alegria e da esperança que emana do ego daqueles que possuem como "amigos" seres tão brilhantes e que escrevem com a alma e para almas! Parabéns pelo seu texto! Paulo Marcondes

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  2. Rosângela Pachêco.Jul 10, 2011 03:58 PM

    João Pedro:

    Sem palavras para expressar toda a admiração que tenho por você. Principalmente pela sua sensibilidade diante das amarras da vida. Te admiro muito, valeu por ter me proporcionado essa confiança novamente em relação a sua pessoa. Você bem sabe do que estou falando. Te amo muito! Rosângela Pachêco.

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  3. Vc é foda!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Paulo Chaves

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