quinta-feira, 30 de junho de 2011

É preciso mais que tempo

Aquele esquema respostas pro que se foi e perguntas pro que virá sempre desperta divagações sobre tempo. Sim. Em parte sobre presente. Também sobre passado. E, essencialmente, sobre o futuro.
Divagando vejo que o tempo já não mais basta. Já não mais dá sentido a construções (em parte inócuas) sobre a temporalidade da existência. Já não ampara convicções movediças sobre mudanças, crescimentos, conquistas.
Hoje - e esta uma medida especialmente agora fugaz (como adiante se verá - ou não) - já não faz sentido às próprias ilusões. Necessário se faz pesar fatos vindos, vindouros ou vividos sob o prisma de uma espécie de tempo que talvez nem mesmo exista. E a concretude de seu existir - inevitavelmente - decorrerá do próprio desenrolar do tempo (digamos) comum.
Em meio a esta confusão (pseudo)conceitual é possível simplificar e tornar claro a olhos que não veem na obscuridade.
É simples. O passado é distante. Está como lembrança vaga. Exatamente por não ter sido construído em tempo recente (e aqui o tempo [possivelmente] dito comum), tudo aquilo ocorrido ontem parece ter sido presente há um sem-número de anos. E isso devido ao fato de o próprio presente ter sido a tônica de um existir imediatista, ansioso. Tal qual como se o porvir estivesse tão distante que as horas, os dias e os meses não pusessem medir tal distância temporal.
Foram anos de atitudes que a partir de hoje vê-se-as como impensadas, insensatas, incompletas, inconsequentes. E mesmo depois do assentamento das ideias - em alguma medida - os atos ainda foram (ou são - impossível saber-se) detentores desses tais qualificantes.
O presente parece - desde este tal assentamento - ser o único tempo palpável, na exata medida de que é uma realidade presumível - em termos. Dá pra vislumbrar muito de suas características e de seu comportamento (ou do que nele é expressado). Parece-me um momento - meio perpétuo - que se alarga até o passado e que avança sobre o que é futuro. Uma construção atemporal de um existir que evolui (ou que simplesmente se altera) silenciosamente, em bases aparentemente sólidas, sem alarde. E talvez aí uma das explicações para essa predominância inconteste do presente: o futuro silencioso surge pelas frestas e o passado ao longe é como a tal paisagem que divide terra e céu.
E em meio a esta confusão de tempos verbais os sonhos (e por que não planos?!) não são tão exíguos assim. São pulsantes. Um presente tão silente e escorregadio que traz ares novos que penetram por fendas ínfimas e que dá uma concretude ao que pode vir a ser e faz do futuro - como dito - algo sim distante, mas acima de tudo possível.
E nesse esquecimento (ou mesmo nessa incontinência) reside uma espécie de estranha confiança. Surgem novas possibilidades (ainda que mais ou menos perigosas), novas formas de ver, novos formatos. Um novo andar temporal - que nem mesmo cabe no tempo (supostamente) comum. Vai sumindo a pressa, a inquietação pela resolução, a sede por troféus, a ânsia por um rosto em bronze - que naturalmente se desbotará ou receberá excrementos vindos dos céus. Vai surgindo lentamente uma curiosa letargia ativa. Um fazer efetivo, porém manso. Um correr na velocidade das ideias. Na verdade, é bem que se diga, um existir imparcial. Um fechar os olhos para a confusão do mundo, para as poses, para as posses alheias. Talvez seja mesmo a própria desilusão para aqueles que aparentam e que heroizam-se impunemente. Um existir autêntico, preguiçoso e reflexivo. E reflexões sempre remetem a ações.
Em algum dado momento é preciso decidir. E nesse instante o tempo sopesa-nos. Nos deixa perplexos com a obrigatoriedade. Decerto não cabe fixar-se na coisa em si. É preciso uma dose de ousadia para tomar o rumo desejado - seja o correto, seja o prazeroso, seja lá o que venha a ser. E no meio daqueles que se entregam à polivalência o tempo se agiganta (ou se apequena).
E é aí que está o mote destas divagações desconexas. São tantos os caminhos - percorridos e a percorrer - que o tempo torna-se pequeno pra que possam ser inseridas as opções tomadas. Presente será até quando o futuro for construído. As viradas (ou os sutis desvios) de sentido farão do passado horizonte por demais distante. O tempo já não cabe no tempo. A existência pede: "É preciso mais que tempo".

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