Singeleza. A simplicidade existencial é algo por demais fascinante. Sempre perseguida, ainda que muito involuntariamente, por aqueles que "sacam" a vida. E é sempre uma linha estreita, escorregadia e tênue. Há sempre o (grande) risco de que caiamos ou pendamos para um lado ou para o outro. Ou se acaba buscando isso de uma forma propositada e doentia. Ou se acaba esquecendo da própria existência e (involuntariamente) tornando-se um nada existencial. No primeiro caso, a natural consequência é a construção de uma personalidade forjada, de um singelo retrato impresso - e não algum desenhado, rabiscado. No segundo caso, o resultado é um verdadeiro barco a deriva - sem governo, sem vontade, sem algum rumo.
E é justo aí que habita a maior das virtudes da verdadeira singeleza existencial: a ausência de poses. Ou a não caracterização do que modernamente se convencionou chamar de fake. Aquele que cultiva (em muito, despretensiosamente - repita-se) o caráter singelo de sua existência acaba por adquirir naturalidade, espontaneidade, leveza. Se despe de atos forjados, de palavras repetidas, de comportamentos (banalmente) tipificados, de fórmulas fajutas de uma tal atitude imaginariamente contundente. De modo bastante simplificado, o singelo existencial não pronuncia o baixo calão impunemente, não coça as partes sem que as mesmas lho implorem, não apologiza ideias (pseudo) revolucionárias pra mostrar do que (acredita, apenas) ser capaz, não se nomeia, não se define. Apenas existe, verdadeira e naturalmente.
Pois bem. A meu ver, o valor artístico dos mais interessantes em uma obra é, certamente, a singeleza existencial. Seja decorrente da própria arte produzida, seja do comportamento reflexamente produzido pela própria expressão do artista. E estes rapazes a mim se mostram desta maneira bastante interessante. São cinco, dentre músicos e/ou poetas, que se unem e, juntos, produzem uma arte existencialmente singela sob a expressiva alcunha de Validuaté.
A parte do que venha a verdadeiramente significar o verbete singelo é bom que se esclareça que uma provável existência de uma tal singeleza intelectual em nada vem a significar aqui algo como ser simplista, ser pouco, beirar o quase nada. A tal singeleza é expressão natural, é verdade, é beleza implícita, é reflexo espontâneo. É aquilo, de fato, belo, admirável.
Exalando poesia, mesclando estilos, imergindo pelo mágico mundo do teatro o grupo vai encantando um público fiel, autêntico e presente. Com letras que trazem toda uma aura de pura poesia - para a qual eu não tenho subsídios pra academicamente denominá-la - que perseguem sonhos, fábulas, amores, encontros, desencontros e, no fundo, alegrias. A acompanhar tais versos nos saúdam riffs, acordes e harmonias precisos, criativos, musicalmente interessantes. Não nos fazem uma tal mistura que resta indigesta, forçada, imposta. Casam estilos - samba, rock, reggae, baião etc e tal - de uma forma tão sólida que não nos parece haver ali embrenhados estilos distintos, mas apenas um som diverso, novo, inédito. E dessa união de estilos com a tal poesia emergem apresentações verdadeiramente teatrais, com personagens que transpiram das situações das letras.
Nos envolve um tal clima de fantasia, as canções parecem nos transportar para algum lugar qualquer belo, inédito, próprio. E o mais interessante é a singeleza do grupo, sem excessos, sem representações que não sejam verdadeiramente artísticas. São sete anos de construção de uma carreira extremamente bem sucedida, com shows inteiramente autorais (salvo regravações - sim, regravações, e não couvers) e dois discos gravados.
O primeiro "Pelos pátios partidos em festa" (2008) e o mais recente "Alegria a girar" (2009). No primeiro trabalho, a meu ver, talvez um disco mais rock com canções que percorrem temas amorosos, temas filosóficos e a expressão da vida em geral - junto ou separadamente. O segundo me parece mais experimental, com auxílios luxuosos de Lirinha, Zéu Britto, o Wolverine brasileiro, Ferreira Gullar, nos traz músicas mais ousadas, letras mais poéticas, mais envolvente, arranjos mais intensos. Um raro caso de uma banda que lança dois discos de extrema qualidade seguidamente, em que nenhum deixa o outro pra trás.
Enfim, pra muitos estas palavras são a concepção do óbvio - dado a natural expressão do talento artístico da Banda Validuaté e a imediata observação disto ao menor dos contatos. Entretanto, sinto-me no dever de alguma forma aproximar minhas palavras deste grupo que produz uma arte intensa e sólida, sem a presença infantil de bairrismos desnecessários ou de posições assustadoramente (e não menos lamentáveis) revolucionárias. O mote é produzir arte - é música, é teatro, é poesia.
Sinto-me no privilégio de poder escrever alguns parágrafos em expressão ao valor artístico que pude (e que sempre posso) perceber em diversas oportunidades. São apresentações incríveis. A plena expressão de uma singeleza artística delicada e verdadeira. Sinto que o Brasil os espera, ainda que nossa posição não seja das mais favoráveis a tal (seja pelas mazelas político-sociais, pela posição geográfica, por um preconceito que porventura exista). E sinto um orgulho danado de poder prestigiar a crescimento artístico deste grupo válido até um infinito.

sem palavras.
ResponderExcluirIncrível....Validuaté é tudo isso mesmo e um pouco mais!
ResponderExcluirBelo espaço cá... a crítica então, precisa e ponderada... :)
ResponderExcluirConcordo. Acredite que é bastante tênue que divide a qualidade da mediocridade. Passa pela qualidade do ouvinte, do observador, assim como ocorre com a beleza e a feiura. Seus textos estão cada vez melhores, e penso que deveriam ser mais visualizados. Sua sensibilidade chega a ser tocante. Validuaté deve se sentir no céu com essa crítica, pois qum a escreveu sabe o que diz.
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