segunda-feira, 16 de maio de 2011

Lobão: 50 anos a mil (2010) - Lobão com Cláudio Tognolli


Passava eu pela banca de revistas da esquina de meu apartamento quando dou de cara com uma revista de formato diferenciado. Meio que quadrada, acompanhada de um CD. Muito provavelmente, na ocasião, eu devia contar apenas com alguma mesada por gastar com coisa alguma. Na caçada em busca de saciar a sede consumista resolvi parar e apreciar aquele material com mais atenção. O preço que constava era o de R$ 7,90. Comprei e corri pra casa para ouvir aquele CD e, enfim, apreciar o material com a devida atenção.
O acontecido deve datar aproximadamente do ano 2000. O fato é que naquele instante eu não sabia ao certo quem era Lobão. Sabia tudo aquilo que todos os pré-adolescentes da minha idade que se sentiam filhos caçulas e órfãos dos anos 80 sabiam. Sabia até menos do que o pouco que sabia sobre Renato Russo, Cazuza, Barão, Legião. Eu só sabia que ele era um cara dos anos 80. Do rock Brasil. Devia conhecer Me Chama, Corações Psicodélicos. Nada mais.
Começo a ouvi-lo e vou digerindo e processando aquelas canções. Com o evoluir das audições vou separando algumas e colocando outras na ordem de outros dias por vir. De imediato me arrebatam "El desdichado II", "Pra onde você vai", "Tão longe, tão perto", "A vida é doce". Com o passar de muitas audições "Vou te levar" também a mim me serve como prova (e celebração) de um amor. "Ipanema no ar", "Uma delicada forma de calor" e "Mais uma vez" também me arrebatam - sobretudo pelo clima anti-pressão que proporcionam, pela sensibilidade que trazem em si para nós.
Pois bem. Passados mais de (longos e velozes) 11 anos cá estou eu pra dizer que ainda não conheço toda a discografia de Lobão. Conheço um pouco mais de sua obra. Estou um pouco menos pouco amadurecido pra entender as letras, os arranjos, a obra e a vida de meu xará - e foi assim que lhe pedi que me autografasse este livro. Aquele dia seria a primeira vez que eu veria um show de Lobão. Muito embora há muitos anos ele houvesse vindo tocar naquele mesmo palco, por coincidência. E, por óbvio, minha mãe não tenha deixado eu ir - no auge dos meus 12 ou 13 anos.
Eu entrei na livraria pra ver se o cara realmente viria autografar os livros. Como o vi na TV ao meio-dia fui comprar meu ingresso - houve um tal de cancela e não cancela o tão esperado show que deixou todos apreensivos. Pra sorte e felicidade geral da nação houve o show. Após isso me dirigi até o local marcado da tarde de autógrafos. Ele ainda não havia chegado e pra saciar a minha louca vontade de gastar algum salário que eu acabara de receber passei a obra no débito. E enquanto eu passava meu cartão, Lobão entra na livraria. Bom, o resto foram autógrafos, observações, um esquenta incrivelmente quente e um show arrebatador.
A leitura da obra permite um olhar mais aproximado de toda a geração 80, sob os olhos de alguém que foi o centro de muitas grandes polêmicas na época. Mais uma vez trago até aqui a relevante (ao menos pra mim) ligação que sempre faço entre início e fim - como fiz ao ler a vida de Elis, de D2 e, estranhamente, a de Sarney. Mas aqui o fato de o biografado trazer a sua visão de sua própria existência não deixa de ser um desafio ao leitor que busca pesar a verdade dos fatos. Ao largo disto, preferi mergulhar na versão do autor - sem uma paranoia elucidativa.
E do mergulho pude perceber fatos que pareciam a mim inexistentes. Eu sabia que Lobão era um cara tido (vulgarmente) por um porra louca, que havia sido preso, que na infância teve essa coisa com a macumba, que brigou com as gravadoras por causa do jabá e todas essas coisas mais ou menos de conhecimento geral. Entretanto, Lobão leu muito, ouviu muito, debateu muito, assistiu muito - ainda que não tenha concluído o ensino médio. Uma prova viva de pura ousadia - doa o que tenha doído nele mesmo.
E quando volto à minha incessante mania de ligar início e fim posso perceber quão curiosa é esta ligação na vida de Lobão. De uma infância tipo filhinho da mamãe, passando por uma juventude intensa, rebelde e completamente entorpecida, até desaguar num homem contestador, polêmico e, (porquê omitir?), verdadeiro. A leitura da obra é tão intensa e instigante que quando percebemos João já é Lobão e nem nos damos conta disto.
Por falar em ritmo, este é um aspecto bem peculiar da obra. Dividido em exatos 66 capítulos. Um momento: isso me lembra a Route 66. A famosa rodovia estadunidense que corta o país inteiro, construída para interligar pontos tidos como aparentemente isolados e inóspitos e detentora de uma tal névoa histórica e artística. De algum modo, os capítulos em que Lobão percorre ligam vários pontos de sua conturbada e propagandeada (para o bem ou para o mal) existência. Da, como já dita, infância mimada, aos conflitos familiares, passando pelo início de sua carreira, pelas inacreditáveis carreiras, pelos famosos embates - Blitz, Paralamas, perseguições, prisão, gravadoras, jabá, numeração - pelo "ostracismo", pelo "renascimento", até chegarmos à multiprofusão de sua carreira. São vários pontos que vão se interligando ao longo das quase 600 páginas que, ao fim, olhamos para trás e vemos uma estrada percorrida feroz e velozmente - também por nós. Lobão romanceia sua vida e nos conta intimamente, sem rodeios, metáforas ou eufemismos, aspectos essenciais de sua existência.
Para aqueles que louvam qualquer paranoia elucidativa há na obra capítulos, embrenhados por entre aqueles escritos pelo biografado, denominados "Lobão na mídia" nos quais o jornalista Cláudio Tognolli traz a repercussão, à época, decorrente dos fatos narrados nos capítulos escritos por Lobão. Me parece um cuidado bastante relevante, haja vista a enxurrada de controvérsias alimentadas por todos os lados contra o xará.
Da leitura podemos, verdadeiramente, identificar um artista nato em João Luiz Woerdenbag Filho. Primeiramente um músico. Multi-instrumentista autodidata que passeia confortavelmente pelo repertório clássico, pelo rock, pelo vasto campo aberto da MPB, pelo samba. Some-se as letras incríveis - sejam hits sejam outras, nem tanto famosas.
Os mais belos capítulos, a meu ver, se iniciam a partir do 59, quando Lobão sai de vez de sua fase vida bandida e adentra em um novo espírito - mais maduro, mais artístico - uma concreta reinvenção de sua carreira. Aqui aparecem samplers, elementos eletrônicos, elementos melódicos, pianos, letras mais profundas. A beleza desta etapa do livro (e da vida) emerge do renascimento do artista de uma espécie de ostracismo forçado, em meio a dificuldades de todas as ordens, em meio ao sepultamento de sua arte praticado por muitos, em meio à sua confusão e angústia. Mas Lobão se reconstrói e volta à superfície arrebatador. E é justo aí que entro em profundo contato com sua obra. É neste contexto que Lobão lança o disco "A vida é doce", aquele que comprei há 10 anos na banca de revistas e ao qual me referi logo ali acima. Eu devia tê-lo dito isto quando da tarde de autógrafos, mas por um motivo qualquer não o fiz.
Um livro lido, inevitavelmente, em um fôlego só. Ao final, entrevistas de pessoas próximas. O epílogo. Interessante perceber que esta não é uma opinião apenas minha, ou pelo menos os números de venda e a posição entre os mais vendidos da Veja (justo da Veja, que ironia) reflitam isto. Mais interessante é perceber o sucesso da obra de Lobão, ainda que seja acometido pela pecha da incompreensão e de um certo estereótipo, são dezenas de hits (na concepção mais distante da expressão mais vulgar do termo) - um deles (um rock) gravado por João Gilberto -, músicas belíssimas com letras contundentes, um recente Grammy em seu primeiro DVD - quando muitos insistiam em apagar as luzes de seu palco -, além de ser um dos responsáveis pelo lançamento nacional de várias bandas independentes (dentre elas o Mombojó). Agora Lobão ataca com o sucesso de sua obra literária inaugural.
Belíssimo livro. Envolvente. Real. Verdadeiro. Humano, acima de tudo, "demasiadamente humano". Vida longa a João Luiz. Vida longa a Lobão. Vida longa à sua carreira como artista: seja na música, seja nos livros.

2 comentários:

  1. Pelo que vc diz, imagino que Lobão está desfazendo a imagem que ele próprio construiu de "um monstro". Não sei se ele fala disso no livro, mas corre nas esquinas a estória (espero realmente que estória) que ele mesmo contou de que fez sexo com a própria mãe. Ou é louco, ou quis a mída a qualquer custo, se isso realmente foi dito por ele. Desconheço-o completamente, enquanto músico, enquanto gente, enquanto escritor.Ficarei com tuas palavras como búsula.

    ResponderExcluir
  2. Essa coisa da mãe não foi dita por ele, pelo menos eu nunca vi ele dizendo, o que ele afirma é que a mão tinha um amor quase incestuoso por ele. A mídia fala muito a respeito dele porque Lobão é sinônimo de polêmica e polêmica é sinal de audiência. Numa entrevista à Gabi ele diz que a mídia inventou esse absurdo, sem que ele o tenha dito.

    ResponderExcluir