sábado, 9 de abril de 2011

Sobre hipocrisia e a tragédia de Realengo

Em algum mês do ano de 2003 o (brilhante) cineasta Michel Moore empunhava a tal estatueta de braços fechados em homenagem a seu documentário intitulado "Tiros em Columbine"(2002). A película trata da (indiscriminada) venda de armas que ocorre nos Estados Unidos, bem como da (lametável) cultura de armas que domina o país. O filme inicia-se com Moore adentrando um banco para abrir uma conta bancária, momento em que leva inteiramente de brinde uma espingarda - fruto de uma promoção para aumentar o número de clientes na instituição. Saindo de lá, e empunhando a sua recente aquisição (a título gratuito, assevere-se), o cineasta parte para uma barbearia. Em lá chegando vai (simultaneamente) dando uma reparada nas pontas (da cabeleira) e escolhendo as balas (da arma). Acrescente-se que tudo isso faz parte do mercado branco, tudo isso é reflexo do direito constitucional do ianque a portar e ter a propriedade de uma arma de fogo.
Ainda há pouco revi o "O Júri" (2003) - muito embora eu lembrasse de bem pouca coisa, nem mesmo da motivação principal. Aqui temos o embate provocado num júri no qual um dos jurados negocia a vitória no mesmo sob a alegação de que possui o controle dos demais julgadores. A referida disputa se dá entre uma indústria de armas (naturalmente no pólo passivo da demanda) e uma viúva que teve o marido vitimado por uma arma de fogo em um massacre. A película foca em cima de todo o poderio da aludida indústria, dando closes na sua influência nada legal (muito menos moral) em tais embates judiciais - seja intimidando testemunhas, comprando veredictos ou intimidando jurados.
Os dois filmes citados logo ali me vieram a mente (de imediato) quando soube da triste e inesperada notícia do massacre ocorrido em uma escola no bairro do Realengo no Rio. Um ex-aluno invadiu o colégio e executou 12 crianças, suicidando-se logo após ter sido abatido por um (corajoso) policial militar de trânsito. Fato que chocou e surpreendeu todo o mundo, em muito também por este tipo (brutal) de acontecimento não ter precedentes na história do país canarinho - sempre tido como um país de povo pacífico.
Mas qual o nexo existente entre os temas tratados nas palavras pertencentes e os parágrafos anteriores a elas? Fácil constatação. Armas. Mas não só. Inicialmente, o filme de Michel Moore tem como cenário a cidade de Columbine, onde ocorreu um dos maiores massacres em escolas dos Estados Unidos - cometido em 1999 pelos jovens de capa preta. Já a ficção "O Juri" - baseado na obra homônima de Jonh Grisham - tem como fundamentos da trama um semelhante massacre ocorrido em uma cidade do interior dos EUA e um outro em que um ex-funcionário invade a empresa e mata vários funcionários (inclusive o tal marido já citado).
Fazendo um paralelo entre a tragédia ianque tratada no documentário e a recente tragédia brasileira é possível perceber várias semelhanças - ressalvadas possíveis distinções próprias de cada contexto. Primeiramente é de se ver que os três assassinos (ou atiradores, como queiram) foram jovens "desprezados". De algum modo, durante a infância e a adolescência escolares os criminosos foram relegados a uma posição, em alguma medida, subalterna. O que hoje comumente se denomina de buyling. Foram vítimas de um contexto de chacotas, foram zombados, e não souberam lidar com uma situação que é comum à grande maioria dos adolescentes em algum momento desta fase - salvo casos que chegam a extremos bem perigosos. Disso tornaram-se reclusos e afixionados por uma maquiavélica e insana vingança tendo como fonte de informação a grande rede.
Entretanto, não é bem essa a ponta do iceberg. Não nos interessa mais (essencialmente) investigar o passado e a motivação do criminoso que já fez suas vítimas e que já não está entre nós para obter sua consequente condenção. Estes (bárbaros) crimes não podem ser evitados com investimentos em segurança pública ou algo do tipo, pois são totalmente imprevisíveis. Nem os mais dedicados dos tratamentos psicológicos seriam capazes de detectar e previnir (tratando, por óbvio) que algum jovem (ou mesmo adulto) - na imensidão de um país - tome (lamentável e nefasta) atitude criminosa semelhante. O tal perfil psicológico que se traça só nos levará ao presumível por qualquer homem médio: o de que ali ricocheteava um mente doentia.
Nos Estados Unidos os jovens encomedaram (legalmente) os pesados armamentos, que vitimaram várias pessoas, pela internet e os receberam na porta de casa por uma dessas empresas de entregas. Aqui, certamente, o assassino conseguiu o instrumento de seus crimes no mercado dito negro. Certamente as duas armas por ele usadas saíram de uma loja (ou de um quartel) e foram de mão em mão (de corrupção em corrupção) passando até que chegaram às mãos deste matador. No hemisfério norte é uma opção clara de um povo que sente uma eterna insegurança - advinda, em alguma medida, de seu natural sentimento de superioridade, hostilidade e de police world - que os "obriga" a requerer o direito a ter um arsenal em casa.
Mas e aqui? Por que o Brasil possui um comércio tão vasto de armas? Talvez a resposta nos remeta inicialmente ao ano de 2005 em que os brasileiros decidiram por seu legítimo direito de portar uma arma, seu legítimo direito à legítima defesa, como argumentaram. Tudo isso sob financiamento das maiores interessadas em continuar a vender armas e munições. Em meio a tudo isso não é absurdo imaginar onde fica o jeitinho brasileiro quando o assunto é vender algumas balinhas pro 38 que deixo guardado em casa. Em meio a tudo isso nos vem a verdade sobre os boatos espalhados por aqueles que se saíram vitoriosos e diziam que, no fundo, esta seria uma estratégia para que Lula implantasse uma ditadura socialista.
Nesse estado caótico de coisas vemos mais vidas, tão jovens, serem interrompidas por um jovem surtado que resolveu por em prática um plano para "vigar-se" de meninas, sobretudo. O grande algoz, de fato, é a nossa própria corrupção, é a nossa própria hipocrisia que nos leva a decisões insensatas que só vem a tona quando já perdemos vidas. E quando tudo torna-se insuportavelmente desolador escapolem notícias de debaixo do tapete, como a de que entre os dezessete projetos que se referem a armamentos e que correm (ou arrastam-se) no Congresso, onze visam a ampliação do uso de armas. E isso, a meu ver, é um forte contribuinte para que mais armas (e munições) sejam roubadas, emprestadas e vendidas a terceiros nem sempre confiáveis ou mesmo para que tomem o correto rumo do nosso genuíno jeitinho.
Mas diz aí: pra que o Brasil, que se louva pacífico, precisa de armas? Será mais um ingrediente para que testemos nosso tal jeitinho que transfigura nossa própria corrupção?! O fato é que senti que a dolorosa tragédia não tem raízes essenciais em problemas de segurança pública ou mesmo relativos à má qualidade da educação pública (e da não existência de policiais armados nas porta de tais escolas), não se trata também de problemas de saúde pública ou acompanhamento psicopedagógicos ou mesmo psquiátricos. A questão é mais ampla pois nunca poderemos prever se aquele ou aquela que passa na calçada ou que divide uma sala conosco possui dificuldades que o(a) levarão a atentar contra a vida de várias pessoas como forma de vingar suas próprias dores.
A questão passa por aquele que se acha vítima de tal dor e autor de tais planos não tenha tanta facilidade em empunhar uma arma. Passa por tais ideias insanas esbarrarem nas barreiras impostas pelas pessoas e pelo Estado. O chavão mais armas nas ruas, mais armas em mãos erradas, decerto, está com a razão. Que não esperemos por mais assassinatos para que tomemos alguma atitude. Mas porque mesmo um país pacífico precisa de armas?!
Saibamos reconhecer a nossa própria hipócrisia e sua, natural, corrupção.

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